quarta-feira, 14 de abril de 2010

Krishnamurti Costa - Antropus



A náusea
Maria Francisca

Nasceu com agudo desencanto da existência civilizada. Um algo imperativo, fisiológico, como morte em vida, uma sensação causada, tentava desesperadamente fazer-se entender, por um mecanismo neural agindo como músculo liso. Mas naqueles dias vivenciava um novo estado de ser, uma secreta serenidade. Era como uma abnegação, talvez sapiência que servia como um escudo diante do entorno, que agora não a embotava mais. Observava a densidade dominante nos centros urbanos compondo uma realidade surreal, bizarra e que inegavelmente declarava a todo instante o triunfo do pessimismo. Secreta também era uma certa alegria dispersa, ou talvez esperança, por perceber a sutileza da outra coisa, que mesmo invisível aos muitos, está na contagem regressiva dos dias que quase vertiginosamente se seguem. Nesses últimos dias observava também a claridade do sol, vinha percebendo algo incisivo na sua luminosidade.
Foi pra a parada de ônibus. Uma linha conhecida, mas que há muito não percorria seu itinerário. Entrou no veículo e sentou-se nos bancos anteriores ao cobrador. Em seguida, duas mulheres, uma obesa e outra quase idosa com cinco crianças cuidadosamente vestidas entraram na condução. As cinco crianças e as duas adultas - todo o grupo - tinham cada uma, um sorvete recém servido nas mãos. Pensou ela, diante da cena, na coragem daquela mãe em proporcionar tal alegria aos filhos e na talvez urgência para, naquele momento, pegar o coletivo. Não ficou aflita.
Continuou observando. Percebe nas duas adultas um brilho opaco de insanidade no olhar. Na mais velha há uma nuance de azul esmaecido na cor do olho e falta de foco. Na outra, o olhar também parece não ter foco, porém os olhos são intensos bem como o tom de sua voz. Esta ri enquanto, para não pagar a tarifa, ajuda uma das crianças a passar por cima da catraca, ambas têm o sorvete nas mãos. Logo se instala o desconforto da situação. Os sorvetes derretiam nas mãos da mais velha, avó das crianças para quem foram passados os sorvetes enquanto a outra ia erguendo os filhos que, sucessivamente se encaminhavam alegres para o fundo do ônibus. Teve a senhora idosa, então, 7 sorvetes nas mãos.
Pessoas se acumulavam na entrada do veículo. Alguém reclamava de tontura. Na fisionomia das pessoas só desaprovação. E Ela, observadora incólume, fazia força no pensamento para que a família conseguisse se acomodar e assim poder curtir o sorvete. Quase sorriu ao observar que mesmo sendo alvo de uma quase massiva rejeição, o grupo não se intimidou. As crianças eram livres e desinibidas.
Ao sair do ônibus olhou para a mais velha. Esta mantinha o mesmo semblante. E reconheceu nela uma parte de si mesma. Alguém mudo, sem emoção. A dor que antes existia deixou agora esta quase náusea por um vazio onde ecoa a miséria da existência humana. Acendeu um cigarro, quando de súbito começou a chover, uma chuva ensolarada. Naqueles dias de verão, “sol e chuva” passaram a ser um evento constante.

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