quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Conversa com a Pedra

Bato à porta da pedra.
_Sou eu, me deixa entrar.
Quero penetrar no teu interior
olhar em volta,
te aspirar como o ar.

_Vai embora_diz a pedra. _
Sou hermeticamente fechada.
Mesmo partida em pedaços
seremos hermeticamente fechadas.
Mesmo reduzidas a pó
não deixaremos ninguém entrar.

Bato à porta da pedra.
_Sou eu, me deixa entrar.
Venho por curiosidade pura.
A vida é minha ocasião única.
Pretendo percorrer teu palácio
e depois visitar ainda a folha e a gota d'água.
Pouco tempo tenho para isso tudo.
Minha mortalidade devia te comover.

_Sou de pedra _diz a pedra _
e forçosamente devo manter a seriedade
Vai embora.
Não tenho os músculos do riso.

Bato à porta da pedra.
_Sou eu, me deixa entrar.
Soube que há em ti grandes salas vazias,
nunca vistas, inultimente belas,
surdas, sem ecos de quaisquer passos.
Admite que mesmo tu sabes pouco disso.

Salas grandes e vazias _diz a pedra_
mas nelas não há lugar.
Belas, talvez, mas para além do gosto
dos teus pobres sentidos.
Podes me reconhecer, mas nunca me conhecer.
Com toda a minha superfície me volto para ti
mas com todo meu interior permaneço de costas.

Bato à porta da pedra.
_Sou eu me deixe entrar.
Não busco em ti refúgio eterno.
Não sou infeliz.
Não sou uma sem-teto.
O meu mundo merece retorno.
Entro e saio de mãos vazias.
E para provar que de fato estive presente,
não apresentarei senão palavras,
a que ninguém dará crédito.

_Não vais entrar _diz a pedra._
Te falta sentido da participação.
Mesmo a vista aguçada até a onividência
de nada te adianta sem o sentido da participação.
Não vais entrar, mal tens ideia desse sentido,
mal tens o germe, a sua concepção.

Bato à porta da pedra.
_Sou eu, me deixa entrar.
Não posso esperar dois mil séculos
para estar sob teu teto.

_Se não me acreditas _diz a pedra_
fala com a folha, ela dirá o mesmo que eu.
Com a gota d'água, ela dirá o mesmo que a folha.
Por fim pergunta ao cabelo da tua própria cabeça.
O riso se expande em mim, o riso, um riso enorme,
eu que não sei rir.

Bato à porta da pedra.
_Sou eu, me deixa entrar.

_Não tenho porta -diz a pedra.
(Wislawa Szymborska - tradução Regina Przybycien)

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