Ao ler e folhear Menina da Fazenda quase consegui ouvir o barulho dos bichos na mangueira, o som do riacho e da cachoeira de minha infância. Por pouco não ouvi o cocorejar das galinhas e senti o cheiro do galinheiro onde eu era encarregado de coletar os ovos nos finais de tarde, atividade que exercia como se a mim tivessem delegado uma missão oficial. Em alguns trechos, pensei, que a autora havia roubado um pouco das minhas histórias no campo. Faltaram algumas façanhas como caçar passarinho - atividade que hoje me condenariam à prisão sem direito a fiança -, eu com estilingue e os mais velhos com espingarda de pressão. Não matávamos apenas por matar. O prazer viria mais tarde à noitinha, quando nos reuniríamos em volta de uma fogueira para saborear a passarinhada. Também faltou as inúmeras tentativas frustradas de meus tios ao armarem armadilhas para apanhar algum graxaim, odiado e condenado à morte por já ter vitimado dezenas de galinhas na calada de diversas noites. Mas essas são coisas de meninos da fazenda.
O encantamento do livro, no entanto, não está em ser uma ponte para o passado, mas um incentivo à imaginação de quem está vivendo as aventuras que a infância sadia ainda proporciona. Minha princesinha Duda, 10 anos, que já tinha achado o livro “lindo” pelas ilustrações, também se apaixonou pela narrativa. Chegamos em casa, eu e ela, após a sessão de autógrafos e, cada um com seu livro, abrimos a “porteira da Fazenda”. A princípio, a maior preocupação da pequena leitora estava concentrada na quantidade de páginas que o pai levava de vantagem na leitura. Mas chegou o momento de deixar o universo imaginário que já tomava conta de nós e sair para buscar os manos Pedro e João, ou Senhor Incrível e Homem Aranha, como preferiam ser chamados os dois irmãos participantes de uma festa à fantasia. Duda me surpreendeu dizendo que levaria o livro junto. Até tentei convencê-la de que, da festa iríamos na casa de um amigo e, havia o risco de ela esquecer o novo livro - a essas alturas, amigo inseparável. Em vão. Não teve conversa.
À noite, os manos se entretinham em campeonatos de games e eu e os amigos nos concentrávamos em fazer fogo e, entre piadas e histórias do mundo dos adultos, acertar o ponto da carne, Eduarda criou um universo paralelo. Um mundo só seu, onde nada interrompia a leitura. Onde o livro só era deixado de lado momentaneamente para matar um inimigo invisível: a fome.
Ao voltarmos para casa, já tarde até mesmo para o relógio biológico de uma criança da cidade que não precisa pular da cama ao sol nascer para tomar camargo ou alimentar uma coleção de aves famintas - mas o faz por obrigações escolares nunca muito bem-vindas -, deitou-se na cama sem querer apagar a luz. Até o banho poderia ficar para o dia seguinte, sob pretexto de encerrar uma missão inadiável. A essas alturas, nem eu consegui achar argumentos.
A menina da cidade dedicou ainda mais meia hora à leitura. Sorriu e se emocionou com a história da menina da fazenda e das primas gêmeas. Acostumada com despedidas, Duda considerou natural as primas terem de se separar, pois sabe que logo as meninas da história voltarão a se encontrar, tal qual acontece com ela e eu. Ao ponto final, finalmente se rendeu ao sono. Com um sorriso no rosto e uma mente cheia de ideias para os sonhos da noite, antes de dormir disse: a menina saiu galopando! Me beijou e dormiu.
Claiton Stumpf
MTb 9747
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criando tecidos, tramas, escritos, diálogos... buscando entrelaçar a todo instante o fio que nos interliga ao fluxo natural regido pelo tempo...tecendo com fé, confiança e boa vontade!
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Quem sou eu
- dan
- Caxias do Sul, RS, Brazil
- Eu, poetizado Me descubro em tudo (Vítor Ramil)
viu, dan?! é isso!
ResponderExcluir:)! é nóis!!!
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